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18 de junho das 19:00 às 21:30
Há histórias que não começam quando decidimos contá-las. Elas começam muito antes, no instante em que a vida nos atravessa sem pedir licença e nos obriga a ser outra pessoa.
Este livro nasce de uma dessas rupturas.
A minha história foi marcada por uma dor que mudou para sempre o meu caminho: a perda brutal do meu pai, assassinado enquanto trabalhava. Naquele dia, não perdi apenas um pai. Perdi uma parte da minha infância, da minha segurança, da minha referência de mundo. A violência, que tantas vezes aparece nos jornais como número, estatística ou ocorrência, entrou na minha casa com nome, rosto e sobrenome.
A partir dali, nada mais foi igual.
Mas este livro não é apenas sobre a morte. É sobre o que fazemos depois que a dor nos encontra. É sobre como uma ausência pode se transformar em força, como uma ferida pode se transformar em missão e como uma filha, marcada pela violência, pode escolher não se calar diante dela.
Ao longo destas páginas, compartilho a minha origem, a história da minha família, os valores que me formaram, as perdas que me atravessaram e as escolhas que me conduziram até a Polícia Civil. Falo dos meus pais, dos meus avós, dos meus irmãos, da infância, da fé, da coragem e das marcas que permanecem mesmo quando o tempo passa.
Falo também da mulher por trás da delegada.
Porque antes do distintivo existe uma filha. Antes da autoridade existe uma história. Antes da voz firme existe uma dor que precisou aprender a caminhar.
A justiça, para mim, nunca foi apenas uma palavra distante, escrita nos códigos ou repetida nos tribunais. Ela ganhou sentido dentro da minha própria casa, quando percebi o tamanho do vazio deixado por um crime sem resposta. Desde então, cada vítima que chega até mim carrega algo que reconheço. Cada família em desespero me lembra que, por trás de toda ocorrência, existe uma vida interrompida, um medo, uma ausência, uma história que não pode ser tratada como número.
Este livro fala sobre violência, mas não se limita a ela. Fala sobre família, memória, fé, reconstrução, escolhas, responsabilidade e amor. Fala sobre perdas que poderiam ter me destruído, mas que, de alguma forma, também me ensinaram a permanecer de pé.
Não escrevo para glorificar a dor.
Escrevo para mostrar que ela pode ser transformada.