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27 de junho das 14:00 às 17:00
“A vida humana, a vida da gente, é um espelho, Fernando. Eu falo de mim, você olha pra você.” Quem diz é Ismael, um dos homens que trabalhavam como garis na Universidade de São Paulo, aquela que se orgulha de ser a melhor do país. Homens que tiveram a generosidade de acolher Fernando Braga por 10 anos, desde a graduação até o doutorado em psicologia social. Lado a lado com eles, o “estudante” testemunhou a brutalidade da “invisibilidade pública”.
As ferramentas mal projetadas, de baixa qualidade, que “não pareciam servir ao corpo, mas servir-se do corpo”. A menina de escola chique que os humilhava pela janela do ônibus de excursão, que os fazia se sentirem feios. O lixo nojento, descuidado, o descarte aviltante que os lançava na condição de objeto. O cotidiano que devorava seus corpos dia após dia, desmantelando ossos, corroendo artérias, contaminando órgãos. E, quando sucumbiam, eram trocados como “se fossem baterias descarregadas”. A alma sobrava – “humilhada, comprimida, aviltada, destroçada”.
Pela voz de Bigode, Tiago, Quinzinho, Josias, Antônio, Machado, Jeremias, Márcia, Valmir, Carlão, Bresser, Lafaiete, Cuca, Preto; pela experiência e interpretação de Fernando, aqui, sempre entremundos, este livro conta, sim, sobre a “humilhação invisível”. Mas conta mais sobre os de classe média, os “ricos”, os estudantes, os professores, os visitantes. Conta, talvez, sobre a maioria dos leitores.
A experiência de ler essa narrativa viva provoca uma perturbação necessária, mesmo naqueles que creem tratar trabalhadores como pessoas, acreditam poder escapar das contradições na classista, racista, imensamente desigual sociedade brasileira. A dor funda que faz deste livro uma leitura imprescindível é provocada pela revelação de que até os melhores entre nós assassinam gente. A cada frase, a cada cena, se revela um pouco mais de nossos crimes. O que se desvela, ao final, é o que preferiríamos manter bem escondido até de nós mesmos.
Você tem toda razão, Ismael, a vida da gente é um espelho. E a imagem que você e seus colegas nos devolvem é a de nossa obscena brutalidade invisível.
ELIANE BRUM
Escritora e Jornalista"